Saturday, October 23, 2004

As Seis Lições de Mises para o Brasil - Parte VI: políticas e idéias

Diogo Costa em 02 de agosto de 2004
Resumo: Diogo Costa finalisa sua análise sobre a realidade brasileira demonstrando como a desinformação esquerdista consegue impedir física e intelectualmente que pensamentos liberais cheguem ao grande público.
© 2004 MidiaSemMascara.org

O livro de Ludwig von Mises produz no leitor um efeito semelhante à divagação por mundos fictícios, tamanha é a largura do precipício que se abriu entre a verdadeira política liberal e a retórica rasa da contemporaneidade. Todo o progresso científico abraçado pelas obras dos teóricos liberais do século XIX, todo o entusiasmo gerado pela perspectiva de quem desvendava um novo caminho, mal conseguiram sobreviver a uma absurda ruptura intelectual, cuja causa só poderá ser completamente analisada pelas gerações futuras.
O número de brasileiros capazes de raciocinar com a terminologia empregada pelos economistas liberais é muito limitado, pois somos reinados por uma hegemonia cultural, com seus produtos somente perceptíveis aos que dela escapam. Termos fundamentais para a compreensão do pensamento liberal perderam seus significados originais e são entendidos de maneira completamente diversa do sentido pretendido pelos autores. Socialismo converteu-se em solidariedade política; liberalismo não passa de um conjunto de teorias de dominação a serviço do interesse estrangeiro (principalmente norte-americano), que pouco se importa com as mazelas do mundo; e Estado nada tem a ver com força e coerção. A manipulação da linguagem transformou os defensores da liberdade em alvos de desprezo ou desconfiança.
Encontramo-nos num vácuo intelectual onde parece que a imbecilidade venceu a genialidade, como disse Nélson Rodrigues, pela superioridade numérica. A desinformação esquerdista consegue impedir física e intelectualmente que pensamentos, como o da Escola Austríaca, tenham acesso ao senso comum brasileiro. Todo conhecimento que difira das teorias esburacadas, expostas do primário à universidade como “verdades absolutas”, fica retido numa espécie de filtro cultural. Essa é a conseqüência de sistemas educacionais suportados pelo Estado. Quem tem o poder de escolher o que a sociedade deve ou não aprender, jamais permitirá que seja ensinada qualquer doutrina que coloque em risco esse poder. Se o Estado é quem promove a educação, as teorias que duvidam da legitimidade do intervencionismo estatal não poderão ser lecionadas. Por ser excluído das salas de aula, o liberalismo acabou sendo eliminado dos debates públicos, e só não veio a desaparecer graças ao refúgio oferecido por escritores comprometidos com a seriedade científica. Foram esses homens que, mesmo marginalizados, mantiveram viva a tradição do pensamento liberal.
Se, no campo da ciência política, efetivar uma comunicação tem-se tornado difícil, o seu exercício foi transformado num palco de atuações canastronas e discursos fingidos a fim de atender às exigências de determinado grupo de pressão. Esse conceito, utilizado por Mises na comparação de partidos políticos a “grupos de pessoas desejoso de obter um privilégio à custa do restante da nação”, eleva-se no cenário nacional à categoria de definição.
Frédéric Bastiat apresenta o Estado como “a grande fiação através da qual todo mundo se esforça para viver às custas de todo mundo”.15 Encaixe perfeito às funções dos grupos de pressão. Se um partido sai em defesa de uma classe, como o PAN (Partido dos Aposentados da Nação) ou o PCO (Partido da Causa Operária), fica evidente que uma eventual vitória nas eleições não beneficiará ao conjunto da sociedade, mas apenas a um determinado grupo. Um candidato a um cargo legislativo, então, que baseia sua campanha em atender as reivindicações de sua cidade ou estado, age de forma irreprochável para qualquer eleitor. Se os Estados Unidos do século passado eram “mais práticos no parlamento”, o Brasil do século XXI é o cúmulo do funcionalismo.
Mas a decadência não se reserva, com exclusivismo, à pragmática política. O professor Hans-Hermann Hoppe, um dos mais eminentes defensores da Economia Austríaca da atualidade, afirma que a economia predominante está num estado de confusão, tentando provar ou contestar empiricamente aquilo que pode ser estabelecido logicamente. Olavo de Carvalho, renomado pensador e dissidente do establishment cultural brasileiro, estende essa decadência científica também à filosofia: “eis em que consiste o ensino atual de filosofia, uma atividade desesperadora cujos praticantes, para se consolar de sua absoluta insubstancialidade, têm de alimentar a ilusão de representar papéis politicamente relevantes para os destinos do país”.
O Estado brasileiro aponta três finalidades essenciais do ensino de jovens em nosso país: “I - domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna; II - conhecimento das formas contemporâneas de linguagem; III - domínio dos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia necessários ao exercício da cidadania.”16 Parece-me uma piada de mal gosto imputar a responsabilidade de atingir esses fins a orientadores que: I- apenas fracassam na teorização e aplicação dos princípios que presidem a produção; II- deturpam a linguagem de tal modo a ponto de definirem socialismo como “conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco de suas desigualdades” III- relevam o domínio da filosofia por permitir ao aluno “entender seu mundo, a realidade que o cerca, as classes e as lutas de classe, o papel do Estado e modos de produção”.
Como resultado, o Brasil hoje produz mentes consideradas pelo PISA (Programa Internacional de Avaliação Estudantil) entre mais inaptas do mundo. Jovens contraditórios o bastante para reclamar do Estado enquanto o alimentam com a virgindade de sua alma.
Apesar de todos os fiascos humanos do século XX, compartilho com Mises da esperança de que nossa civilização, e em especial o Brasil, “sobreviverá respaldada em idéias melhores que aquelas que hoje governam a maior parte do mundo”. Não é através da violência das armas que resistiremos à ruína, mas através do poder das palavras. Quando este momento passar, serão lembrados aqueles que, no meio da loucura generalizada, perseveraram na busca pela verdade. Esta será a recompensa de tão honroso trabalho prestado pelo Instituto Liberal e diversos pensadores que, através da mídia impressa ou virtual, conseguem divulgar as idéias que derrotam idéias; idéias que, como disse um dos maiores gênios do século passado, podem iluminar a escuridão.

Norberto Bobbio

José Nivaldo Cordeiro
em 10 de janeiro de 2004

Resumo: Morreu Norberto Bobbio. Terá sido talvez o escritor que mais influenciou as Ciências Sociais no Brasil. Sua obra tem sido leitura compulsória nas nossas universidades. Foi, pelo requinte de sua arte de escrever e pela leveza dos seus argumentos, o maior divulgador de Gramsci, e não apenas por aqui. Enquanto discípulo ele superou o mestre na arte de divulgar falsas noções e mentiras inteiras em Ciência Política. José Nivaldo Cordeiro
© 2004 MidiaSemMascara.org



Morreu Norberto Bobbio. Terá sido talvez o escritor que mais influenciou as Ciências Sociais no Brasil. Sua obra tem sido leitura compulsória nas nossas universidades. Foi, pelo requinte de sua arte de escrever e pela leveza dos seus argumentos, o maior divulgador de Gramsci, e não apenas por aqui. Enquanto discípulo ele superou o mestre na arte de divulgar falsas noções e mentiras inteiras em Ciência Política.
É nisso que consiste todo o perigo que uma leitura desarmada de sua obra representa. Ela tornou-se o catecismo do gramscismo, com aura sofisticada, de tal modo que penetrou fundo na forma de pensar e de perceber o mundo de sucessivas gerações de brasileiros. A presidência de Lula não aconteceu ao acaso. Um jovem que eventualmente se matricule em qualquer dos nossos cursos universitários tem lá a esperá-lo o veneno de sua doutrinação, em linguagem mansa e elaborada. Será difícil depois escapar de sua sedução demoníaca. Bobbio criou um falso liberalismo de esquerda, como se fosse possível conciliar a ânsia igualitarista com os princípios da liberdade.
É sintomático que os jornais de hoje trazem muitos comentários sobre Bobbio e sua obra, todos eles de políticos e escritores de esquerda, fazendo a devida apologia. Mesmo as publicações mais conservadoras não deram nenhum espaço para autores que pudessem lhe tecer críticas. Isso dá bem o grau de medida da vitória de Bobbio e de seu guru, Gramsci, em nosso meio. É o espelho de nosso emburrecimento coletivo.
Em artigo de hoje na Folha de São Paulo o filósofo Renato Janine Ribeiro, que se declara seu admirador, fez o seguinte comentário: “Veja-se seu ‘Liberalismo e Democracia’: embora socialista, Bobbio reconhece os méritos do pensamento liberal. Mas não esquece que o termo "democracia liberal" expressa uma contradição ou, ao menos, uma tensão. Distinguir democracia e liberalismo é recusar a pretensão dogmática de que todo o bem esteja de um lado, e todo o mal de outro... O resultado é que ele retira da direita moderada o monopólio da liberdade! E com isso ele dá, à esquerda democrática, a vantagem de ser a única a defender ao mesmo tempo a liberdade e a igualdade”. Foi muito feliz em sua síntese.
O problema é que em Bobbio democracia tende a se resumir no fetiche do ato de votar, depois que todos os chamados aparelhos ideológicos do Estado foram tomados pelos defensores do ideal coletivista. A opção do eleitorado será sempre pelos representantes do socialismo, falsificando a disputa eleitoral. A democracia fica torta, falsa, uma vez que foi deslocada de sua condição fundamental, que é o princípio da propriedade privada e a defesa do Estado mínimo. Na verdade, Bobbio não retirou da direita moderada (o adjetivo aqui não caberia) o monopólio da liberdade, ele roubou o conceito para fazer dele um engano lamentável, plastificando-o em uma embalagem barata. Liberdade é intrínseca àqueles que defendem a economia de mercado e a livre iniciativa.
Se você, meu caro leitor, é ainda jovem e está fazendo algum curso superior, tenha cuidado. Bobbio é veneno para a alma, é um sedutor habilidoso da juventude. Leia seus livros com lupa, sempre tendo em mente o que move o autor, que é o seu empenho em implantar as idéias igualitárias, sabidamente contrárias tanto à liberdade como à natureza humana. Em outras palavras, jamais esqueça a teleologia motivadora de tudo que escreveu.

O mal invisível aos cientistas

Carlos Reis em 26 de agosto de 2003 Resumo: Carlos Reis (26/08)

"Uma característica fundamental das atuais táticas revolucionárias na América Latina, Estados Unidos e Europa é a de apresentar as mobilizações contestatórias com a aparência de espontaneidade, como se estas se efetuassem sem a articulação e auxílio de ativistas especializados em psicologia e engenharia social.
Trata-se de cobrir com esta aparência de espontaneidade tanto os movimentos "sem terra" ou "sem teto" do Brasil, quanto aos "piqueteiros" argentinos, os "indigenistas" mexicanos ou equatorianos, os movimentos pseudo "pacifistas" ou "antiglobalização" da Europa e Estados Unidos, certos grupos "antiamericanistas", o denominado "novo lumpen", com seus "excluídos", pseudo "excluídos" e "automarginalizados", a "flash mob", etc.
Na realidade, por detrás de boa parte dos tais movimentos, que atuam dessa maneira aparentemente natural, existem "redes" revolucionárias que atuam "horizontalmente" e valem-se de táticas denominadas "liliputianas" e de "invisibilidade", o que contribui para fazê-las passar desapercebidas aos olhos da maioria das pessoas. Tais redes na realidade constituem um conjunto ao mesmo tempo gigantesco e capilar de articulações contestatórias no mundo inteiro. Seus membros utilizam poderosos instrumentos de psicologia social, de sociologia, de publicidade, etc., para conseguir em nível de grupos sociais e até de nacionais a desconstrução do pensamento e da vida, rumo a uma sociedade comuno-anárquica".
in "Táticas revolucionárias atuais: espontaneidade aparente e articulação "invisível" rumo à anarquia". Destaque Internacional - Informes de Conjuntura, Ano V - No. 108 - Responsável: Javier González. Buenos Aires, 16 de agosto de 2003. Tradução: Graça Salgueiro.

Esta longa epígrafe lembra que há um bem determinado mal que permanece inadvertido à grande parte dos observadores políticos e principalmente aos mortais comuns. O comentário que faço abaixo na esteira do texto acima pretende reafirmar essa advertência àqueles que, responsáveis por ofício de captar a realidade política internacional e nacional, insistem em ignorar fatos que crescem e se avolumam. O próprio sentido da dita "ciência política" e suas congêneres, e a própria filosofia política, as quais pretendem surpreender em nível maior e mais abrangente a realidade dinâmica da sociedade, e que ambiciosamente se alçam à tentativa de compreender a vera natureza humana na arena do poder, restam prejudicadas ao adjudicarem-se magnanimamente uma pretensa isenção, uma indesculpável neutralidade que lhes acarreta, ao cabo, a impossibilidade de diagnosticar o objeto próprio de seu mister neste início de milênio.
Há algo de novo no ar.
O diagnóstico de um médico, e aqui me valho da minha própria formação, é sempre o diagnóstico de um mal. O médico procura esclarecê-lo antes de combatê-lo; é um dever só, porém dividido em duas etapas; o melhor conhecimento do mal, e a melhor opção para combatê-lo. Já o cientista social só tem a primeira parte do dever médico: o conhecimento. Por obrigação de isenção o cientista social ou político não se posiciona contra o mal, isso quando o vê; sua posição é neutra, ele teme que sua presença em um lado seja denunciada por seus colegas e que por isso ele perca sua legitimidade. Assim ele se torna incapaz de diagnosticar o mal do corpo político, da sociedade como um todo, etc. Aliás, ele se defenderá dizendo que sua profissão não é para isso. O mal, ou o Mal, não é seu mister conhecer, muito menos combater. Em suma, se o Mal, ou o mal, estiverem presentes na realidade que ele analisa, ele não os verá; não está treinado, por ofício, a reconhecê-los. Se for pressionado a fazê-lo defender-se-á com uma frase feita: isso é maniqueísmo! Pronto, está resolvido seu problema ético-moral! Se a pressão vier na fórmula de uma idéia intelectualmente elaborada, ele defender-se-á com a recusa: isso é uma teoria conspiratória!
Mas por que lembro isso tudo? Porque o Mal (e agora explico a inicial maiúscula) conseguiu influir na produção do conhecimento em grau nunca antes visto. Ele o substitui, corrompendo-o a partir de dentro, impedindo que esse se apresente e cresça no ser pensante para melhor poder destruí-lo. Isso é mais do que ideologia, ou farsa da verdade ou do conhecimento; isso é um processo inteiro, ou manobra diabólica de extraordinária eficiência que deixa apenas perceber-se como epifenômeno (no seu sentido médico), como exasperação, palavra que, imagino, bem descreve a situação de alarmante violência nas relações de homens e estados, de grupos e de pessoas. A exasperação como estado de espírito dominante não é órfã nem aleatória - há uma certa organização nesse caos moderno, assim como um bem declarado intuito de baixar o ponto de fusão das emoções (exasperações) por estímulo continuado à anarquia e à extrema licença comportamental. Há que se admitir que esse Mal tem sido eficiente. Como movimento revolucionário então, é perfeito.
Há também outro ponto inadvertido à própria investigação racional: o Brasil está perdido para o debate honesto, o duelo dialético que só pode acontecer na arena educada de quem respeita as regras. O Brasil já é suficientemente desonesto intelectualmente, a se considerar as posturas de seus representantes autorizados, seus baluartes, não por acaso, autocreditáveis. Não há mais honestidade onde impera a exasperação, onde todos se irritam, se inflamam e reivindicam verdades sem reconhecer o contraditório saudável. Não há mais ambiente racional onde e quando a força da dialética é incapaz de diminuir o ardor retórico. Mais do que isso até, vivemos e somos levados a pensar no domínio da fantasia mais chã. As bruxas socialistas que conquistaram tal poder de invisibilidade já podem inculpar os adversários de seu próprio poder mágico, de seu feitiço de perfeição e eficiência, metaforicamente.
Quem, por conta dessa perfeição e eficiência ficou à margem dos conhecimentos e informações, que se reveladas identificariam ou diagnosticariam a insídia que se instalou a partir do próprio conhecimento, não está mais em condições de agir sobre ele mesmo; reduzir-se-á ao poder simbólico do mago que anuncia a tempestade depois de ouvir o trovão, nada podendo fazer, porém, para impedi-la. Ainda sim, a descreve mal. No entanto, tais informações e conhecimentos não estão escondidos em mosteiros medievais, inalcançáveis e indecifráveis. Não, estão à disposição de quem quiser conhecê-los. É só ler corretamente as fontes, a maioria das quais externas ao mundo formal do conhecimento e da informação, por isso mesmo infinitamente mais confiáveis e verazes.
Assim dessa maneira se encontra a realidade internacional e nacional, inadvertida e incógnita à maioria. Uma onda mundial avassaladora, articulada, e falsamente apresentada como do lado do Bem - a cidadania, o estado de direito, a democracia, a paz internacional, direitos humanos, meio-ambiente, e todas as outras causas nobres da humanidade -, portanto, que se apresenta como salvadora do homem e da civilização, criou para si o disfarce perfeito para a insolvência civilizacional e a desagregação dos valores. Quem não a diagnostica como um Mal não a diagnostica em absoluto, não podendo apresentar-se como portador de soluções; apenas arranha a superfície onde ela está oculta. Por outro lado, quem tem as soluções vai além do conhecimento, procura destruir o Mal; age sobre a realidade, a transforma, paradoxalmente, a transforma! Viramos o fio nesse século XXI. Por incrível que pareça, transformar a realidade não será mais propor uma nova ordem marxista, mas intentar revogá-la, desbancá-la de onde se alçou.
Mas esse saber e essa transformação são socráticos - há que se sofrer. Os inconvenientes são a amargura de marchar só, e o risco, primeiro, de ser ignorado; depois, ser chamado de louco; e, por fim, ser desqualificado por não ter credibilidade reconhecida, aliás, todos atestados pelo próprio Dr. Mal, majoritário, rotulador, e orientador do establishment, porque, afinal, fantasmas não existem, bruxos são os outros, e seres invisíveis não passam de frutos de um imaginário doentio.
Esses heróis anônimos e minoritários tendem a dar nomes a esse fenômeno moderno. De fato, a partir do Fórum Social Mundial se revelou a estratégia das "redes nômades" como foi chamada primeiramente a organização neocomunista atual. Os nós da "rede" são as células modernas da revolução internacional, substitutas das delegações de poder concedidas pelo antigo poder soviético a organizações que precisavam se mostrar para recebê-las. A organização horizontal oculta as lideranças até o último momento, ainda dentro do princípio leninista da dualidade do poder. Hoje não, não há essa fonte identificada nem um receptor declarado do programa de ação. Todos mentem e omitem suas intenções. Nem por isso ela fica ineficiente; pelo contrário, ganha em autonomia, independência, e agilidade.
Por outro lado, o caráter internacional, subitâneo, que usa e abusa da tecnologia moderna das comunicações e do apelo irresistível da propaganda midiática, deu uma nova vida às antigas idéias globalizantes e internacionalistas do socialismo desde Trotski e sua 4a Internacional. Uma vida moderna. Moderna porque abre mão dos antigos compromissos com a classe obreira; moderna porque percebeu que se abre às sociedades dizendo as coisas que elas gostam de ouvir, e moderna porque se abre a alianças verticais e díspares, para melhor disfarçar suas intenções, a 4a Internacional evoluiu em décadas, transformou-se, e adaptando-se chegou ao nosso tempo. Por que não chamá-la de 5a Internacional, quando nunca houve antes nada parecido com a internacionalização completa do comunismo como nem Trotski ou Stalin sonharam? Como disse o russo Vladimir Bukowski os Estados Unidos pensam que venceram a Guerra Fria. Ledo engano deles; o mundo hoje tem um boneco de Judas do seu tamanho!
Mas como o poder inebria e seduz, tampouco os líderes socialistas mundiais em destaque abdicam da glória de serem os expoentes atuais dessa "5a Internacional". Não é o que tencionam Lula, Fidel, Hugo Chàvez quando se alçam aos palcos internacionais disputando entre si a primazia das atenções, isso sem falar no grande número de atores coadjuvantes e menores? Isso poderia ser o inverso da invisibilidade, mas não é; é sim, a ponta necessária à legalidade institucional que ainda é necessária ao faz-de-conta do mundo superficial, o mundo da democracia "consolidada" do FHC, de Schröeder, de Clinton, o mundo das aparências, o mundo social-democrata, seu espectro mais inocente. Parece restar depois disso uma única esperança: que a imagem em exposição demasiada de tais líderes seja corroída pela erosão do tempo.

Entrevista com Danny Seaman

Danny Seaman, Diretor da Imprensa Oficial Israelense
por Redação MSM em 16 de outubro de 2002

Resumo: Danny Seaman, diretor da Imprensa Oficial Israelense, explica por quê o Estado de Israel é apresentado como um monstro pelas telinhas do mundo. © 2002 MidiaSemMascara.org
Danny Seaman sabe muito bem porque o Estado de Israel tem tão má imagem nas telas das televisões de todo o mundo. "Por instrução direta da Autoridade Palestina", explica o diretor da Imprensa Oficial Israelense (GPO), "as agências das redes estrangeiras em Jerusalém são pressionadas para contratarem diretores e produtores palestinos. E eles determinam o que é divulgado. Os jornalistas, com certeza, negarão esse fato, mas essa é a realidade."
Q: O que faz o senhor ter tanta certeza?
"Uma série de fontes que, se expostas, se revelarão profissionalmente comprometidas. São pessoas que tomam partido em relação aos fatos que estão nessas agências."
Q: De que agências estamos falando?
"As maiores são a Associated Press e a Reuters, que fornecem informação a centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro. Em segundo plano estão as grandes redes de televisão, a CNN e a BBC, e as estações americanas, a ABC e a CBS."
Seaman alega que os funcionários palestinos das diversas redes trabalham em total coordenação. Mas isso não é tudo. "Três grandes produtores," diz o diretor da GPO com profunda convicção, "estavam coordenados com Marwan Barghouti. Ele telefonava para eles e informava-os do que estava para acontecer. Eles sempre recebiam, assim, um aviso antecipado sobre qualquer abrir fogo em Gilo. E então registravam para a TV somente a resposta do fogo de Israel aberto sobre Beit Jala. E esses produtores aconselhavam Barghouti sobre como levar da melhor maneira a mensagem palestina"
Q: Após as acusações, o senhor poderia me dar alguns nomes.
"Não estou preparado para divulgar detalhes. Todas as pessoas que estão na área sabem quem são."
Profissionalmente, Seaman é o mediador entre os jornalistas estrangeiros e as diversas autoridades de Israel. Enquanto estas recebem ampla representação, aqueles são percebidos mais como uma fonte de distúrbio. Seaman não tem pudor de admitir isso, Ele considera os correspondentes estrangeiros um monte de crianças mimadas que até agora vêm recebendo condições privilegiadas e que têm dado em troca têm dado malcriações. "Eles se acostumaram a ser tratados com muita liberdade em Israel," disse Seaman, "mas acabaram abusando da liberdade que lhes demos."
Seaman, que é um funcionário público civil, não mede as palavras para descrever a conduta da mídia estrangeira em Israel. Ele faz duras acusações aos correspondentes estrangeiros, e algumas chegam a parecer esdrúxulas. Eles estariam não somente cingidos à Autoridade Palestina por um nó górdio, como também estariam roubando vidas de israelenses. Mas logo as coisas ficarão em ordem. Seaman vai botar esses gentios na linha.
Na semana passada o Ma'ariv noticiou que a GPO só emitiria credenciais de jornalista para fotógrafos e produtores estrangeiros se estes obtivessem antes uma permissão de trabalho do Ministério do Trabalho e Bem Estar Social e um visto do Ministério do Interior. O que está em questão é uma determinação legal antiga que nunca foi exigida até agora. Significa que se espera cortar substancialmente o número de funcionários estrangeiros nas agências de Israel. Mesmo antes disso, Seaman já tinha decidido revogar as credenciais de jornalistas de todos os residentes dos territórios.
Os dirigentes das agências e redes de notícias acham muito difícil entender, ou pelo menos afetam inocência quanto a o que, exatamente, Danny Seaman quer deles. Como os israelenses não podem entrar nos territórios, dizem os dirigentes das agências, sem os fotógrafos estrangeiros e os repórteres palestinos fica muito difícil, ou talvez até impossível trabalhar, Rejeitam com desdém as alegações de Seaman quanto a uma cobertura pró-palestina. "Trabalhei muitos anos com palestinos," diz Charles Enderlin, o veterano correspondente da France 2 TV, "e eles sempre demonstraram profissionalismo. Isso para não dizer que não há chefe de agência que deixe o seu assistente palestino decidir o que deve ser divulgado. Nego veementemente essa acusação."
"Nós não fazemos as notícias, apenas as divulgamos," dizem, defensivamente, os jornalistas estrangeiros. Alguns deles têm o sentimento, embora não o digam explicitamente, de que alguém que não gosta das notícias quer matar o mensageiro. Seaman, 41, nasceu na Alemanha. Seu pai pertenceu à Força Aérea Americana, e sua família o seguiu por todo o mundo. Em 1971 emigraram para Israel e se estabeleceram em Ashkelon. Seaman serviu como paraquedista, após o que estudou ciência política em Nova York.
Começou, também, a fazer relações públicas com o Consulado de Israel em Nova York. Quando voltou a Israel, em 1990 foi trabalhar na GPO. Passou dois anos no Gabinete de Imprensa das Forças Armadas de Israel (IDF), e em janeiro de 2001 foi nomeado diretor da GPO. "Eu sou”, diz ele com orgulho, “o primeiro diretor que não foi nomeado por motivos políticos"
Seaman define seu trabalho como "duplo e restritivo. Por um lado, tenho de representar o Estado de Israel e os seus interesses diante da mídia internacional, e por outro, tenho de representar os repórteres estrangeiros diante do governo e criar uma atmosfera de mídia apropriada para eles. Às vezes um papel se sobrepõe ao outro, e logo acontece o contrário."
Q: Qual é o dominante agora?
"Hoje há uma maior necessidade de cuidar dos interesses do Estado de Israel, porque estamos em uma situação de emergência."A impressão é de que Israel não tem motivos para se preocupar, Seaman está fazendo a sua parte. Sempre chega às canas dos maiores ataques terroristas e tenta ajudar os jornalistas a ter acesso ao material o mais rapidamente possível. Seaman também fez questão de assistir ao julgamento de Marwan Barghouti "A GPO não está cobrindo o julgamento," explica ele, "mas seria negligência nossa não capitalizar esse fato para as nossas relações públicas. O nosso trabalho é permitir a cobertura." O MK (membro do Knesset, Parlamento) Ahmed Tibi, que também usou o julgamento para fins de relações públicas, irritou-se com Seaman. " O comportamento de Seaman no tribunal é simplesmente inaceitável," diz Tibi. "Ele pede aos jornalistas que entrevistem as famílias das vítimas do terror. Não é o seu trabalho, ele não é um editor."
Seaman devolveu: "Ahmed Tibi ficaria feliz se o Estado de Israel deixasse de existir, e acha que fazendo o barulho que faz está fazendo o seu trabalho. Gostaria que ele aprendesse a respeitar os tribunais antes de comentar como eu faço o meu trabalho"
Seaman tem um entendimento claro sobre como os palestinos conseguiram o controle das televisões. Disse que na década de 1980 os palestinos começaram a criar jovens para trabalhar na imprensa estrangeira, Também argumentou que todos os palestinos que trabalham na mídia fizeram curso sobre manipulação da mídia na Universidade Bir Zeit.
Se Seaman estiver certo, o esforço valeu a pena. "Durante muitos anos," explica, "os repórteres estrangeiros criaram um certo romantismo em torno da luta palestina, Adotaram o ponto de vista e a terminologia deles." Seaman, que se declara apolítico, disse que esse processo também foi exacerbado pelo "discurso em Israel. Desde o momento em que a antiga Terra de Israel perdeu as eleições em 1977 a deslegitimação sofrida por todos os líderes de direita, Begin, Shamir, Netanyahu e Sharon, contribuiu para o esforço de deslegitimização que os palestinos iniciaram em 1964."
Seaman está convencido de que os jornalistas estrangeiros puderam se movimentar livremente pelos territórios ocupados e falar com quem quisessem até a chegada de Arafat. "A partir do momento em que Arafat chegou," explica Seaman, "a sua dependência dos palestinos da mídia cresceu. E quanto mais a Autoridade Palestina apertava o seu domínio sobre a terra e quanto mais próximo ficava o conflito, mas firme ficava o domínio palestino sobre a imprensa estrangeira. Há quatro anos atrás começaram as ameaças contra funcionários israelenses, inclusive árabes de Jerusalém Oriental.
Os palestinos fizeram os jornalistas estrangeiros entender que se você não trabalhar com o nosso povo, nós nunca faremos contato com você, você não terá acesso às fontes de informação e não vai conseguir entrevistas."
Seaman tem certeza de que a maioria esmagadora da mídia se rendeu a essa pressão, Ele não está preparado para dar qualquer crédito a jornalistas palestinos que trabalhem nas redes estrangeiras. "Hoje sabemos”, diz Seaman acaloradamente, "que todo o incidente Mohammed a-Dura foi preparado com antecedência pela Autoridade Palestina, em conluio com fotógrafos palestinos trabalhando para redes estrangeiras. Na minha opinião, aquele incidente deu início, realmente, à Intifada. Até ali ela não tinha pagado."
Os fotógrafos palestinos de poses também fazem parte do jogo. "São fotografias ensaiadas," diz Seaman com certeza, e diz que está preparado para ir aos tribunais contra a falsificação. "O IDF (autoridade militar israelense) anuncia que vai demolir uma casa vazia, mas de alguma maneira, depois, você vê a fotografia de uma criança chorando, sentada nas ruínas. Há interesse econômico nisso. Os fotógrafos palestinos recebem das agências estrangeiras 300 dólares por uma boa foto, e por isso fazem provocação deliberada aos soldados. Reduziram a fotografia à prostituição." Seaman dá nota cinco, em uma escala de um a dez, à cobertura dos eventos nos dois últimos anos. Como já se disse, ele acha que praticamente todos estão infectados. "Eles são hostis," diz ele, e especifica os franceses, os espanhóis, a BBC. A hostilidade se manifesta na redação, na filmagem tendenciosa, na adoção automática da versão palestina e na suspeita imediata sobre a versão israelense. Durante o cerco a Belém, os palestinos alegaram que nós havíamos matado um monge. Ninguém se abalou em pegar o telefone e falar com um representante to Papa para ouvir dele que não havia acontecido nada parecido."
Seaman não se preocupa em falar sobre a consciência européia. "Acuso," diz ele sem hesitação, "particularmente a imprensa européia. Os correspondentes noticiam qualquer injúria contra Israel como se fosse um fato. A negligência da cobertura que fazem está contribuindo para a onda de anti-semitismo que grassa no continente, e que deveria pesar muito na consciência deles." Quatro jornalistas ocidentais receberam atenção especial da GPO.
O que está em questão, na realidade, é uma falta de atenção. Seaman dá nome aos bois: Suzanne Goldberg do British Guardian, Lee Hockstader do Washington Post, Sandro Contenta do Toronto Star e Gillian Findlay da ABC. Seaman acusa cada um deles de noticiar imprecisamente e reduzir as coisas. Hoje, nenhum deles está mais em Israel. "Nós simplesmente os boicotamos," conta Seaman. "Não cassamos as credenciais deles, porque este é um país democrático. Mas em nome do mesmo valor eu também tenho o direito de não trabalhar com eles. Os conselhos editoriais entenderam a mensagem e substituíram o pessoal. Quando o Washington Post percebeu que um jornal menor, como o Baltimore Sun, estava conseguindo material exclusivo, entendeu que tinha um problema." Alguns dos que saíram acabaram se dando bem. Suzanne Goldberg foi promovida para Washington, e uma repórter que se deu muito bem foi Rula Amin. A famosa repórter palestina da CNN cujas matérias feitas aqui sobre a Operação Escudo Defensivo foram vistas por muitos como preparadas pelo Ministério Palestino da Informação hoje trabalha em Bagdá e tem muito tempo de televisão. Seaman tenta ficar calmo. "Quando os executivos da CNN nos visitaram," diz ele, "deram a entender que se fizéssemos uma queixa dela, ela seria despedida. O fato de ela agora estar em Bagdá atesta o nível profissional da rede e o valor da palavra dos seus executivos."
Quando o fotógrafo da Kol Ha'Ir pediu para fazer uma fotografia de Seaman contra um fundo de tela de televisão, ele só concordou se a televisão estivesse sintonizada no canal Fox, a alternativa mais barata que as empresas de TV a cabo em relação à CNN. Seaman diz que não se arrepende. "Pessoalmente, não gosto das transmissões da CNN em Israel," diz ele, "porque é a sua rede européia. Se fosse a rede americana talvez me incomodasse mais." Os repórteres e editores estrangeiros do prédio JCS na rodovia que liga Jaffa a Jerusalém, onde ficam os escritórios de alguns dos maiores serviços de mídia do mundo ficaram petrificados com as declarações de Seaman nesta semana. "Não posso crer," diz Charles Enderlin, "que Seaman, o diretor da Imprensa Oficial, pudesse fazer acusações desse nível. Se é assim que eles querem fazer relações públicas aqui, então eu não entendo mais nada deste país onde vivo há 34 anos."
Enderlin disse que houve situações isoladas de pressão palestina sobre questões locais. Acrescentou que a Associação da Imprensa Estrangeira em Israel encontrou uma resposta apropriada: "Decidimos que se um fotógrafo de qualquer uma das redes fizer uma imagem que a Autoridade Palestina queira confiscar, todos estarão autorizados a usá-la." Outro jornalista importante admite que alguns dos jornalistas palestinos deverão apoiar, naturalmente, o esforço nacional palestino, mas ele salienta que encontra mais freqüentemente exemplos de coragem. "Hoje é muito difícil produzir mídia livre nos territórios, mas eles têm conseguido," diz o jornalista.
Respondendo a este artigo, Tim Heritage, chefe da agência da Reuters, disse: "As acusações de Seaman são absurdas e sem base." Andrew Steele, chefe da agência da BBC em Jerusalém, disse: "A BBC tem reputação internacional de objetividade e equilíbrio. Pensar que alguns dos nossos jornalistas mais experientes possam repentinamente ter desenvolvido uma dependência completa das fontes palestinas, e que os funcionários palestinos decidam quais as notícias que devem ser divulgadas para o exterior poderia ser engraçado se não fosse tão ofensivo. Irrita mais ainda quando se pensa que o órgão do Sr. Seaman tem negado credenciais aos membros palestinos da nossa equipe."
Fonte: Kol Ha'Ir -11 de outubro de 2002.
Tradução: Paulo Wengorski.

A Paz do Terror

Martim Vasques da Cunha em 18 de setembro de 2002

Resumo: Sob a proteção silenciosa da mídia cúmplice, a China, que já ocupa militarmente o Tibete, prepara a mais injustificada agressão imperialista das últimas décadas: a invasão de Taiwan.

A paz do terror suspende sobre as populações uma ameaça global e monstruosa. A subversão impõe a cada indivíduo a obrigação de escolher seu destino, seu partido, sua nação. A ameaça termonuclear reduz os homens a uma forma de passividade coletiva. A arma psicológica, brandida pelos revolucionários e pelos conservadores, visa a todos os homens, porque se dirige a cada um deles".Raymond Aron, Paz e Guerra Entre as Nações.

I - Nada é o que parece serUm avião de transportes do Exército da Libertação do Povo da China saiu de Pequim em direção a Kabul, no Afeganistão. Seus passageiros eram uma delegação especial do Exército, com a missão de negociar com integrantes do Taliban um contrato já acertado com Osama bin Laden, o braço-direito do Mulá, para entregar radares para identificar mísseis, tecnologia bélica de ponta, sistemas de defesa aérea e planos de estratégia militar. Em troca, o Taliban prometia acabar com o ataque de muçulmanos extremistas nas regiões do noroeste da China. O encontro entre a delegação do Exército da Libertação do Povo chinês e o Taliban em Kabul aconteceu no dia 11 de setembro de 2001. Enquanto isso, dois aviões atravessavam as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e um outro avião caía numa das alas do Pentágono, em Washington. Um terceiro avião, dominado por terroristas, caiu em um campo aberto no estado da Pensilvânia (versões contraditórias do próprio governo americano falam que a causa da queda se deve ao ataque de caças aéreos, numa ordem dada pela Casa Branca, ou de uma bomba que teria sido detonada dentro da cabine do piloto). Segundo Gordon Thomas, autor do livro Seeds of Fire (Sementes do Fogo), publicado no início de 2002 nos Estados Unidos e na Europa, o que aconteceu no dia 11 de setembro é apenas parte de um quebra-cabeça que o mundo ainda não percebeu e que tem apenas uma única finalidade: transformar a China em um novo império e no principal inimigo dos Estados Unidos.Thomas é autor de vários best-sellers de reportagens e romances de espionagens, além de ser comentarista político para a TV irlandesa. Seeds of Fire recebeu resenhas na Inglaterra e nos EUA, mas aqui no Brasil não se escutou uma só palavra sobre ele. A causa é simples: através de seus contatos, fontes e documentos, conseguidos do FBI, da CIA, do M-15 (o Serviço Secreto Britânico) e do Mossad (o Serviço Secreto Israelense), Gordon Thomas quer provar um raciocínio assustador - o de que a China financiou Osama bin Laden para elaborar e executar o ataque do 11 de setembro e, o pior, com a ajuda involuntária dos próprios Estados Unidos.Poderia ser uma história maluca, mas acontece que Gordon Thomas não está sozinho. Outros jornalistas e analistas políticos estão falando a mesma coisa. O problema é que quase ninguém os escuta. Entre os poucos que tentam avisar sobre o plano da China, está Richard Fisher, editor do think tank semanal China Brief e analista de segurança internacional, que, num artigo publicado no dia 1 de agosto, fala de "uma repentina mudança de atitude por parte do governo americano em relação à China", de acordo com um relatório do Pentágono, lançado internamente no dia 12 de julho. "O que antes era uma espécie de tratamento amigável entre os EUA e a China", explica Fisher, "agora o Pentágono avisa que [esta situação diplomática] pode ter contribuído para a crise sobre Taiwan e, principalmente, para o aumento de investimentos em armas e tecnologias bélicas, estimado em cerca de US$ 20 bilhões".A "crise sobre Taiwan" é um dos momentos mais delicados nas atuais relações diplomáticas e, surpreendentemente, nenhum jornal importante do mundo ocidental, seja na imprensa escrita ou na televisiva, deu qualquer notícia relevante. A surpresa fica por conta da gravidade da situação: segundo o jornalista Joe Dougherty, do jornal independente World Net Daily, a China começou a movimentar milhares de misséis movéis e de longo alcance em províncias chinesas que apontam em direção a Taiwan. Os números são indeterminados: muitas fontes falam em quinhentos mísseis, outros falam em cinco mil. A dúvida impera porque faz parte da própria estratégia chinesa criar uma indefinição em torno de suas intenções.Mas para Richard Fisher as intenções da China em relação a Taiwan são cristalinas, como se mostram desde 1993, quando a China começou a bloquear sistematicamente a entrada de Taiwan nas Nações Unidas. Em outro artigo, publicado no China Brief de 8 de julho, Fisher não hesita em afirmar que "para subjugar a república democrática de Taiwan, a China comunista terá que vencer uma batalha contra os Estados Unidos". Ele cita a declaração do General Maior Huang Bin, do Exército da Libertação do Povo, o braço armado do governo chinês, ao jornal Ta Kung Pao, de Hong Kong:"Mísseis, aeronaves e submarinos são todos meios que podem ser usados para atacar caças aéreos. Nós temos a habilidade para lidar com um caça aéreo que entrou no nosso campo de fogo. Uma vez que decidirmos usar força contra Taiwan, nós definitivamente consideraremos uma intervenção dos Estados Unidos. Os Estados Unidos gostam da vaidade, da glória; se uma de suas aeronaves for atacada e destruída, o povo americano começará a reclamar e protestar de forma veemente, e o presidente americano perceberá que o assunto vai se tornar cada vez mais complicado".Isso mostra outra característica do plano chinês, que é a sua lentidão deliberada. "A unificação com Taiwan é uma meta de médio a longo prazo", disse Fisher a Joe Dougherty, "e eu não a vejo realizada antes do final da década ou pouco depois".O raciocínio de Fisher bate com a resposta que o cientista social Steven E. Mosher, autor de Hegemon: The Chinese Plan to Dominate Asia and The Rest Of The World ("Hegemonia: O Plano Chinês para Dominar a Ásia e o Resto do Mundo"), deu ao radialista Geoff Metcalf, da rede virtual TalkNet Daily. A pergunta de Metcalf era: "Qual seria um dos ítens mais pertubadores sobre a intenção da China em entrar em guerra com os EUA?", à qual Mosher respondeu, sem hesitar:"Nós ouvimos através de uma fonte da imprensa de Hong-Kong que o presidente Jiang Zemin, o líder do país, o líder do Partido Comunista Chinês, disse à comissão militar, formada pelos generais do Exército de Libertação do Povo, aeronáutica e marinha, que 'eles deveriam se preparar para entrar em guerra com os Estados Unidos por volta de 2008'".Mas como pode a maior potência militar do mundo deixar que declarações como esta se tornem verdadeiras? O fato é que nem os próprios Estados Unidos estão tão seguros como estavam anos atrás, na época da Guerra Fria. Por isso, a ajuda que o presidente George W. Bush prometeu a Taiwan se esta fosse invadida soa como uma mera promessa que não terá muita relevância prática. Os EUA estão com as mãos atadas - e esta situação só tende a piorar com o agravamento da crise entre China e Taiwan.

II - Uma bomba relógio prestes a explodirA situação em que se encontra a república democrática de Taiwan lembra muito os versos de abertura das "Elegias de Duíno", de Rainer Maria Rilke: "Quem, se eu gritasse, ouvir-me-ia na hierarquia dos anjos?". Na imprensa mundial, todos se fazem de surdos perante o receio taiwanense de que a China ataque a qualquer momento. Já na imprensa brasileira todos estão surdos, cegos e mudos. Observem o que um jornal como O Estado de S. Paulo, considerado um veículo representativo da "direita" liberal-conservadora do país, publicou no dia 8 de agosto sobre a crise, com o crédito da notícia ficando em nome da Associated Press:"Taiwan cancela manobra sob ameaças da China
TAIPÉ - Numa tentativa de aliviar as tensões com a China, Taiwan cancelou ontem exercícios militares do dia 15. Pequim advertiu ontem que o aumento "de medidas extremas em favor da independência", forçam a nação comunista a preparar uma solução militar contra a ilha. A ira chinesa foi provocada pelos comentários do presidente taiwanês, Chen Shui-bian, de que Taiwan e China eram nações diferentes. (Associated Press)" No dia 6 de agosto, temos outra nota sobre o efeito dos comentários que o presidente de Taiwan, Chen Shui-Bien, deu em relação à pressão chinesa:"Presidente de Taiwan suaviza comentários que irritaram a China TAIPÉ - O presidente taiwanês, Chen Shui-bian, suavizou hoje seus recentes comentários de que a China e Taiwan são países distintos, dizendo que os dois lados têm soberania e são iguais. A afirmação do líder taiwanês, feita há três dias, de que há dois países separados em ambos os lados do Estreito de Taiwan, provocou enérgicas críticas de Pequim. Para o governo chinês, Taiwan é uma província rebelde, onde se refugiaram os nacionalistas após a Revolução Comunista. (AP)".No dia 5 de agosto, a repórter Priscila Arone, da Agência Estado, publicou uma pequena matéria sobre o impacto da crise China-Taiwan nas bolsas de valores asiáticas:
"Questão China-Taiwan provoca queda em Taipé
SÃO PAULO - O aumento das tensões entre China e Taiwan provocou a maior queda da bolsa de Taipé em oito meses (-5,78%, aos 4.636,67 pontos). Os investidores retiraram dinheiro do mercado com medo de que a discussão sobre Taiwan ser parte inseparável da China pudesse provocar baixas ainda maiores na bolsa. Além das questões internas, a baixa de 2,27% do índice Dow Jones e de 2,51% do Nasdaq na sexta-feira, afetou o desempenho de todos os mercados do sudeste asiático. Na Coréia do Sul, a desvalorização do índice Kospi foi de 3,56%, o pior desempenho em sete meses. O mercado filipino sofreu o impacto dos resultados nos EUA e também da baixa demanda dos consumidores. O índice local encerrou o dia em -0,34%. Em Tóquio, os investidores estrangeiros decidiram vender seus papéis de tecnologia, mas a medida foi ofuscada pela procura por barganhas. O Nikkei 225 fechou em leve baixa de 0,05%, acumulando quedas pela quarta sessão consecutiva. No intervalo dos negócios, as demais bolsas do sudeste asiático registravam: Hong Kong: -0,83%; Indonésia: -1,72%; Malásia: -0,06%; Tailândia: -1,91% e Cingapura: -1,58%". No mesmo dia, foi publicada uma nota que relata o ponto de vista chinês sobre o assunto:
"China rejeita referendo proposto por Taiwan
PEQUIM - Um porta-voz da chancelaria chinesa disse ontem que Pequim jamais aceitará a independência de Taiwan, em reação à proposta da véspera do presidente taiwanês, Chen Shiu-bian, de convocar um referendo sobre o futuro da ilha. O governo americano afirmou que manterá sua política de "uma China", que reconhece a visão do governo chinês, mas quer que o status de Taiwan seja decidido pelas duas partes. (AFP e AP)". Reparem que são somente notas ou então pequenas matérias, com o foco da notícia voltado exclusivamente para o aspecto econômico do problema - na verdade, muito mais uma conseqüência do que uma causa que possa explicar o imbróglio. Não há uma reportagem mais extensa, sequer uma análise mais profunda sobre o assunto. Qual seria o motivo? Ou melhor: Por que o medo de querer descobrir o que motiva realmente as relações conflituosas entre China e Taiwan?
Mídia Sem Máscara entrevistou um cidadão de Taiwan, agora morando na cidade de Campinas, São Paulo, como estudante. Ele pediu que não fosse divulgado o seu nome, muito menos que fotos fossem tiradas. Respeitando a estas exigências, Mídia Sem Máscara teve acesso a certas informações que, apesar de serem comuns a qualquer habitante de Taiwan, não são divulgadas pela imprensa brasileira, sabe-se lá o motivo. Chamaremos o estudante com as iniciais XYZ e as únicas informações pessoais que podemos divulgar é que seus pais são de Taiwan, e sua família veio para o Brasil porque o pai de XYZ conseguiu um emprego numa multinacional em meados de 1996. Nessa época, ainda não começara a perseguição e a pressão que o governo chinês realiza atualmente sobre a república de Taiwan.
"Meu pai não é um membro do Partido (Comunista), mas é mais um observador da situação que acontece lá", explica antes de tudo XYZ. Seus avós, tanto por parte de mãe como de pai, continuam em Taiwan, e muitos de seus amigos com quem mantém contato freqüente também estão na ilha. "Eles estão muito nervosos porque não é nada fácil ficar sob a mira de milhares de mísseis", explica. "A China tem um interesse político, simbólico e estratégico na ilha de Taiwan", continua o estudante, "o político é por causa do partido que está no comando do atual governo e que está articulando o plebiscito sobre a independência da ilha". O partido citado é o Progressista do Povo, de tendência liberal e nítido opositor das diretrizes do Partido Comunista Chinês. Ele compete com outra facção política, a do Partido Nacional do Povo, de viés mais conservador. "O interesse simbólico se deve à viagem que o presidente Chang Kai Chen [sucessor de Mao-Tsé Tung] fez à ilha, onde morou por alguns anos. Já o estratégico é, talvez o mais importante, porque a ilha de Taiwan fica num ponto central do litoral da Ásia. Quem dominar este ponto terá acesso não só ao litoral do Japão e das Filipinas, como também atravessará o limite com o Ocidente, possibilitando a expansão chinesa além do Oriente".
Este último ponto confirma as intenções da China de querer provocar um conflito com os EUA, para enfraquecê-los e assim acentuar ainda mais o plano de hegemonia. Mas, de uma certa forma, os laços que prendem os EUA são mais sutis do que pensamos. "Os EUA têm interesses econômicos com a China, depois que esta se abriu economicamente para o mercado estrangeiro ocidental e serão estes mesmos interesses econômicos que podem prejudicar Taiwan na questão da independência da ilha". Parece que não são somente "interesses econômicos": existem também "interesses militares". Segundo Al Santoli, conselheiro de segurança nacional da senadora republicana Dana Rohrabacher, "o Pentágono ficou muito incomodado com o fato de que, na época do governo Clinton, os EUA deram acesso aos militares chineses de encontros com políticos, soldados e até mesmo planos, mas receberam muito pouco em retorno".
E que incômodo: "Durante os anos Clinton, os oficiais do Exército da Libertação do Povo tiverem acesso aos exercícios e às bases do exército americano", informa Santoli, "mas agora na administração Bush, vários oficiais estão visitando quase todos os locais que envolvem questões de segurança nacional, até mesmo cantinas".
Paralelamente, há também uma sensação de incerteza que ronda a própria China. "O governo chinês está muito frágil, há várias manifestações de oposição", argumenta o estudante XYZ. Contudo, a visão de Richard Fisher é diferente: para ele, a inquietação política só tende a ajudar no aumento do aparelho militar do Exército da Libertação do Povo. "Essas manifestações contra o Partido só aumentam o valor do poder bélico da China. Para contê-las, eles vão aumentar os custos em armas e em estratégias de combate, além de intensificar a idéia de unir Taiwan como parte da unidade chinesa". O mesmo relatório que Fisher cita em seu artigo de 1 de agosto, publicado no China Brief, informa que "a China gasta atualmente cerca de US$ 65 bilhões por ano em armamentos, o segundo maior do mundo, apesar de afirmar, oficialmente, que gasta US$ 20 bilhões". Pode parecer pouco em relação aos US$ 300 bilhões dos Estados Unidos, mas mostram que os gastos militares estão crescendo constantemente, ainda mais numa região como a Ásia.
O que a China está criando é uma hábil teia de enganos para levar os EUA ao limite militar. "Agora mesmo, enquanto bombardearmos o Iraque e a Iugoslávia, estaremos no extremo de nossas capacidades", explica Wes DeMont, ex-agente do FBI, ao jornal World Net Daily, "e se entrarmos numa guerra com três ou quatro fronts de batalha, não conseguiremos suportar com nossa atual infra-estrutura".
Além de Taiwan, outro ponto estratégico, segundo DeMont, são as ilhas Spratly, localizadas no extremo oeste do sul da China. "É mais provável que a Terceira Guerra Mundial comece ali do que na Iugoslávia. Várias nações asiáticas [Filipinas, Malásia, Brunei, Vietnã] estão querendo as ilhas, mas somente a China colocou postos militares de observação, com três navios de guerra circulando a ilha principal".
Entretanto, o que talvez seja o principal motivo para a China querer invadir Taiwan é o fato de que a ilha é uma república democrática, comenta Fisher. O estudante XYZ vê uma possibilidade de ter alguma verdade nisso, mas comentou a Mídia Sem Máscara que também encara com algum ceticismo que os EUA possam ajudar Taiwan por uma razão de liberdade política: "Seria muito mais um motivo de interesse econômico do que um ideal democrático". A única coisa de que se tem certeza é que a China não está quieta. Sua intriga com Taiwan é mais uma peça do quebra-cabeça que começamos a tentar desvendar com aquele avião de transportes que aterrissou em Kabul, no dia 11 de setembro de 2001. Contudo, podemos tirar, com os fatos apresentados, duas conclusões: a de que os Estados Unidos da América estão perdendo o posto de império e a de que a China está tentando substituí-lo.

III - Embaixo de nossos narizes
Para entender a situação que se desenvolve aos nossos olhos e que ninguém está percebendo, é preciso saber que continuar com a herança do antigo império chinês sempre foi uma vontade da República Comunista da China - motivação esta que ganhou força nos últimos anos com a ideologia comunista, expansionista por natureza. O mais interessante a respeito da China atual são as suas semelhanças com vários países ocidentais, inclusive o próprio Brasil.
Enquanto os jornais nacionais mostram a última visita de Lucélia Santos para filmar um documentário sobre "a cultura milenar da China", poucos sabem o que está acontecendo dentro daquele país, onde perseguições são rotina e a liberdade de consciência é vigiada pelo Estado. O estudante XYZ contou a Mídia Sem Máscara que, apesar de ninguém da sua família ter sido perseguido por qualquer oposição ao Partido Comunista Chinês, ele sabe de pessoas que sofreram na carne aquilo que é apenas narrado em relatórios diplomáticos e livros de História. "O pai de um amigo do meu pai morreu durante uma revolta popular, ao ser perseguido pela polícia porque se opunha ao governo. Depois, a mãe desse sujeito foi presa, depois que descobriram que ela queria fugir para os EUA. E este amigo do meu pai foi perseguido durante o governo todo do Chang Kai Chei".
Existem também as perseguições religiosas. "O cristianismo, o budismo e o taoísmo já foram reprimidos em maior grau", explica XYZ, "mas hoje eles estão sendo aceitos pelo Partido porque há uma minoria [10 milhões de pessoas numa população de quase 1 bilhão], devido às repressões realizadas na época da Revolução Cultural". Ainda assim, uma das pedras no sapato do governo chinês é a facção religiosa Fa Lun Kon, que realiza cultos e atividades que promovem a melhoria da saúde mas, de acordo com os relatórios do Partido, é responsável por "reuniões ilegais e críticas contra o governo". E complementa: "A religião oficial na China, aquela que predomina nas elites dominantes, é o marxismo".
Se a liberdade religiosa é inexistente, o que dizer da educação? "Ela gira em torno do Estado", disse XYZ. "A elite chinesa é composta por quatro setores, que se influenciam mutuamente, independentemente de hierarquia. Eles são os universitários, os professores de escolas e faculdades, os oficiais militares e os governantes. Os professores são como gurus para os militares e os governantes. E os universitários são como militantes, agitadores do Partido, que trabalham como espiões para investigar quem pode ser o próximo traidor. Já os professores aconselham os homens do governo e estes ajudam os professores com aumentos nos salários, porque todas as universidades são financiadas pelo governo ou então têm supervisão ideológica". Esta observação pode ser comprovada pelo que disse o cientista político Steven W. Mosher, em entrevista já citada à rádio TalkNet Daily: "Todos os estudantes estão sob o poder da China. Eles pertencem ao Partido Comunista Chinês porque o sistema educacional dos últimos dez anos foi reestruturado para transformá-los em bons patriotas chineses, depois da revolta da Praça Tiananmen. Estes estudantes podem não ser fiéis à ideologia comunista, mas certamente são leais ao país, leais à nação e leais às forças políticas que criam a coerência de tudo isso".
Neste clima insuportável de suspeita, nem mesmo a mídia escapa. "Todos os jornais na China são controlados pelo governo, e o mais impressionante é que ele consegue fazer isso até mesmo com os jornais provincianos, que ficam em regiões distantes do país. Parece que o governo está por todo o lugar".
A intenção de enfraquecer os EUA, despistando-os com as ameaças contra Taiwan, são confirmadas com relação à Rússia. "Há um respeito mútuo entre a China e a Rússia, por causa de sua ligação com o comunismo, principalmente para tentar uma espécie de aliança contra o império americano", complementa XYZ. Realmente, é uma aliança e tanto: de acordo com Steven Mosher, "A Rússia é agora o arsenal do desespero. Eles estão vendendo armamentos a preços baixos para a China porque estão desesperados com a exigência de manter a economia interna flutuando. E a China quer ter acesso às armas russas. E se eu fosse a Rússia, estaria bastante disposto a abraçar o Dragão. Por um simples motivo: existem apenas 8 milhões de russos nas montanhas Yural. E há de seis a sete milhões de imigrantes chineses ilegais rondando a extensão do território russo, entre o leste e a Sibéria. Eu estaria com medo se fosse a Rússia de que a China estaria realizando uma espécie de conquista secreta da Sibéria através da imigração ilegal".
Aos poucos, o desenho do quebra-cabeça fica mais claro. Alguma coisa errada está acontecendo no mundo - mas ninguém dá um aviso. Esta deveria ser a função da imprensa, mas Steven Mosher dá a explicação mais simples e, ao mesmo tempo, mais assustadora sobre o silêncio dos jornalistas:
"[Os empresários e donos de jornal] estão envolvidos de duas maneiras na ameaça chinesa. A primeira é que todos estão interessados em ganhar dinheiro do mercado chinês - então eles não querem ofender seus parceiros de negócios enquanto estão ocupados negociando seus impostos. A segunda é que a China é muito mais eficiente do que a União Soviética para dar vistos e autorizações e, dessa forma, entrar no país para fazer negócios. Assim, se você publicar um artigo criticando a China, pode apostar que, se for à embaixada chinesa, seu visto de entrada será negado. E isso afeta várias pessoas que não criticarão a China porque querem preservar seu acesso a este país.
Na época em que Hong-Kong estava voltando para o Partido Comunista Chinês, nós tivemos uma série de conferências e alguns jornalistas que estavam ali nos disseram que eles estavam dispostos a realizar auto-censura, porque estavam com medo que o regime de Pequim pudesse negar as credenciais de imprensa. E agora muitos jornalistas nos Estados Unidos estão também entrando no esquema da auto-censura, porque os grandes jornais e as grandes redes de TV estão interessados em realizar negócios com a China. Então eles descartam seus furos e evitam publicar qualquer notícia que critique o governo chinês".
A pergunta que não quer calar é a seguinte: Seria também o caso do jornalismo brasileiro?
O problema é que esta passividade coletiva em relação às intenções da China e uma vontade de se importar com assuntos menores - como a ALCA e a tão esperada invasão dos EUA contra o Iraque - pode esconder algo que, por causa do silêncio da imprensa mundial, leve a uma irresponsabilidade sem precedentes. A ilusão de viver num mundo onde a paz é interrompida em ataques terroristas chocantes - como foi o caso do 11 de setembro - pode nos levar a viver em uma época em que o terror apenas se prepara para explodir sem nenhum aviso. E quando esta explosão acontecer, como a humanidade conseguirá recuperar a paz - se algum dia ela existiu?

IV - O mal lógico
O sucesso do plano de hegemonia chinesa depende de uma nova forma de terrorismo: o terrorismo psíquico. É claro que qualquer espécie de terror mexe com a ansiedade e o medo que surgem das fraquezas da mente, mas, pelo menos, a desproporção do ataque é finalmente visível quando vemos a destruição, o sangue e as ruínas. Este terrorismo é diferente: a desproporção existe, mas ela se tornou, por algum passe de mágica, invisível. Ele age na mente das pessoas, em especial nas idéias que recebem das comunidades acadêmicas e da mídia.
Na verdade, é um processo digno de lavagem-cerebral, usado no melhor estilo da Guerra Fria, quando a União Soviética e os Estados Unidos ainda lutavam por uma espécie de hegemonia bi-polar entre o mundo comunista e o mundo capitalista. Esta sempre foi uma divisão fútil, criada justamente para acentuar a lavagem cerebral. Nunca houve uma Guerra Fria e sim, sempre, uma Paz do Terror que se prolonga até os nossos dias. O fim da União Soviética, que se transformou na sucata chamada Rússia, com seus ex-agentes da KGB virando mafiosos - cujo principal produto de exportação não eram mais as idéias de Lênin ou Trotsky mas sim moças de quinze anos treinadas para a prostituição e o tráfico de drogas - não passou de uma conseqüência inevitável da corrosão que o Terror provoca.
Para que a Paz do Terror seja tratada como a Paz desejada por todos da CNBB, é preciso uma dose de ingenuidade ou então de grande malícia. É bem capaz que a última opção seja a mais concreta. O Terror se manifesta na mente das pessoas, para depois se infiltrar em suas almas, aniquilando cada uma das suas disposições. Assim, quem realiza e promove a Paz do Terror tem um grande conhecimento de como é a natureza humana e, portanto, a estrutura da realidade. O novo terrorista não é um fanático, como pensam que foram os suicidas do 11 de setembro. Aqueles infelizes foram apenas buchas de canhão. O terrorista dos nossos tempos sabe que o comunismo não dá certo nesse mundo, mas usa-o para conquistar a única coisa que dá sentido à sua vida mesquinha: o Poder. Este sujeito tem uma determinação dos diabos (com o perdão do trocadilho) porque sua relação com o mundo e com as pessoas que o rodeiam é de um ódio que ultrapassa as convenções da boa etiqueta. Para ele, o ódio é a grande razão de ser - e transformá-lo em um plano político, que inclui não só a invasão de territórios, mas também a invasão de pensamentos e crenças, prova que estamos num outro patamar no problema do Mal: o do Mal Lógico.
Não importa o plebiscito da ALCA ou se os EUA atacarão o Iraque para tirar um verme que foi posto pelos próprios americanos. Tudo isso são desvios da mente humana, para que a humanidade não perceba que alguma coisa errada a China está preparando. Os fatos e os comentários publicados nesta matéria não são meras ficções ou alucinações de mentes paranóicas: são relatos de pessoas que estão ali, no olho do furacão, e não são ouvidas exceto por uns poucos que se dão ao trabalho da proeza. Não se trata de saber se a China quer a hegemonia comunista ou capitalista: trata-se de que estão planejando tornar a nossa vida em um verdadeiro inferno, mas como se fosse uma revelação religiosa.
Raymond Aron previu este ponto com precisão no seu tratado Paz e Guerra Entre as Nações, publicado em 1962, no auge da Guerra Fria:
"A inspiração dessas práticas é tão antiga quanto as tentativas de conversão - seja dos inquisidores, em busca da salvação de almas, seja dos conquistadores ou revolucionários. As "confissões" dos processos de Moscou eram um simulacro, grotesco e monstruoso, da conversão. Provavelmente a maior parte dos intelectuais chineses 'convertidos' não acreditam na versão de seu próprio passado que redigiram, empregando conceitos do partido triunfante. Mas nem sempre se pode distinguir perfeitamente a fé e o ceticismo na alma dos militantes e dos prisioneiros, dos encarregados da 'reeducação' e dos convertidos. De um certo modo, os companheiros de Lênin, a um passo da morte, continuavam a pensar que 'o partido era o proletariado' e que seu chefe, Stálin, não se apartava da causa proletária. O pensamento ideológico se processa por meio de identificações em cadeia; é sempre um raciocínio, embora muitas vezes irrazoável. E nada mais fácil do que aceitar raciocínios em si verossímeis, mas absurdos com referência à realidade.
Tanto a subversão como a repressão levam à técnica da 'reeducação', porque ambas pretendem dissolver uma comunidade, forjando uma outra para ocupar o seu lugar. No caso da guerra civil, as comunidades a destruir e a construir são ideológicas; no caso de uma guerra de libertação, são nacionais. As possibilidades de uma e de outra são determinadas previamente não pela qualidade dos meios mas pela natureza dos homens. Um marroquino nacionalista jamais aderiria à causa da grandeza da França, qualquer que fosse a duração de sua permanência num 'campo de reeducação' e por maior que fosse a sutileza dos psicotécnicos para convertê-lo. Os argelinos autenticamente nacionalistas também não são 'recuperáveis'. As idéias são mais maleáveis do que a alma, e a nacionalidade está inscrita na alma, não nas idéias" (págs. 244-245).
Apesar de ser um sábio no assunto de ciência política, Aron foi demasiadamente ingênuo em relação à nacionalidade inscrita na alma, pelo menos se observarmos os nossos dias. O Mal Lógico conseguiu destruir até mesmo a nacionalidade - e este é o motivo real para criticar a globalização com a qual a China só tem a ganhar em seu plano de hegemonia. Contudo, a Paz do Terror se impõe na sua subversão, uma subversão tácita que, graças aos ensinamentos de Antonio Gramsci, já atingiu o senso comum de cada cidadão em seu cotidiano. A cultura, a linguagem e a filosofia formam uma tríade que foi corrompida pelo excesso de politização, que virou uma espécie de resposta religiosa aos problemas do mundo - e Raymond Aron captou este ponto com muita acuidade.
O triste é que os vigilantes estão no mundo do sonho. O jornalismo ocidental, como mostrou Steven Mosher, está compactuado com as intenções chinesas por uma simples questão de medo. É a vitória plena do terrorismo psíquico: atiçar a covardia de cada um e insuflar o interesse financeiro para que pensem que tudo gira em torno de dinheiro. Na Paz do Terror, quem domina as peculiaridades do Mal Lógico estará prestes a dominar a consciência individual que, dentro de seus limites, tenta lutar contra a desordem que impera. Quando cairá a máscara para que todos, enfim, possam ver as faces desta hidra que, lentamente, quer nos dominar?
Nota: Este foi o ato mais recente que demonstra o plano chinês, divulgado pela agência Reuters no dia 2 de setembro.
"China pode ter bloqueado acesso ao Google no país
PEQUIM (Reuters, 09:48) - A China parece ter bloqueado o acesso ao portal de busca Google, alimentando especulações sobre uma operação para barrar, às vésperas do congresso do Partido Comunista em novembro, sites da Internet considerados subversivos.
O Google, com sede nos EUA e que se tornou popular entre os chineses devido à sua simplicidade e sua capacidade de passar por instrumentos de busca em chinês, estava inacessível via servidores do país asiático no sábado de manhã, disseram usuários.
"Ele foi expulso de Pequim," disse um membro da indústria do setor, que segue os regulamentos do país para a Internet e que usou seu computador para confirmar o bloqueio.
O governo tenta abertamente controlar o conteúdo dos sites acessados na China, onde a Internet ameaça o controle exercido pelo Partido Comunista sobre os meios de comunicação. Vários sites estrangeiros foram bloqueados e freqüentemente sites nacionais são obrigados a apagar trechos considerados inadequados.
Um artigo colocado no portal NetEase.com afirmou que o Google havia sido bloqueado porque as buscas poderiam levar a sites de pornografia, a conteúdos relacionados com o movimento espiritual proibido Falun Gong e a informações consideradas prejudiciais à segurança nacional.
Os censores dos meios de comunicação da China tendem a endurecer em épocas politicamente sensíveis, disseram analistas. E o bloqueio ao Google pode ser uma tentativa de limpeza às vésperas do congresso do Partido Comunista, que promete anunciar mudanças na liderança do país.
Na semana passada, o presidente chinês, Jiang Zemin, reuniu-se com chefes da área de propaganda do partido e disse-lhes ser importante a criação de uma "atmosfera boa" antes do início do congresso, em 8 de novembro.
Segundo analistas, foi a primeira vez que o governo bloqueou o acesso a um instrumento de busca".

Wednesday, October 20, 2004

Direito, Retórica e Política

Ciência Política 8


André Veríssimo

1. Como diz o Sofista de Platão (diálogo em que se procurava demonstrar que Sócrates poderia ser um contrapeso ponderado a uma atracção desajeitada: assim a dialéctica socrático-platónica era não disputativa e oposta à erística com uma visão protréptica (exortativa) – uma exortação de ética dialéctica que conduziria o interlocutor a devotar-se a si mesmo ao conhecimento (sophia) e à excelência humana (areté) … este é o nome dado desde então às exortações no campo platónico ao saber ético. A efectividade desta forma literária deriva da habilidade platónica de tornar toda e qualquer asserção irónica ou paradoxal, assim sobrepondo outros significados para além do literal) no mesmo momento em que se trata de expor a teoria do saber, a expressão do pensamento pela linguagem causa problemas. A linguagem, como ligação de nomes por verbos, pode não corresponder ao liame de coisas do real que visa exprimir. Mais ainda, os próprios elementos da ligação – os conceitos – podem não ser apropriados. E é assim tarefa do epistemólogo fazer da linguagem uma espécie de « característica » universal à boa maneira leibniciana ou não, que em todos os casos possa corresponder e convir às exigências do pensar, quer dizer imitar pelo som da voz o que não tem som – a Essência (Ousia) da cada coisa. Ora esta língua não foi inventada pelos formalistas. A linguagem nesta perspectiva constitui-se como um obstáculo para o saber. Se não podemos servir-nos da linguagem como um veículo para alcançar as coisas e mesmo o saber, o que poderá existir além disso ? Se existe o saber, a coisa no-lo dirá, não a palavra. É a essência da coisa que é objecto de saber. Ou seja, não existe saber sem realidade objectiva. O saber está fundado sobre o Ser, não sobre a linguagem (não o entende assim Crátilo numa asserção nominalista); o saber estando subordinado ao Ser torna irrecusável o saber derivado de imagens e signos do Ser.

2. No livro A Persuasão de Américo de Sousa (2001), o logos encontra-se incondicionadamente ligado a um estudo para-além-do-ser, e edificado razoavelmente (organicamente) antes das palavras numa óptica cognitiva e consciente. É que, sem pôr em causa esta visão tradicional do papel da emoção na elaboração de um juízo, António Damásio veio mostrar que, pelo contrário, justamente por se aceitar a influência prejudicial das emoções sobre o raciocínio é que mais surpreendente se torna - como o provaram as suas experiências laboratoriais - que “a ausência de emoções sobre o raciocínio não seja menos incapacitadora nem menos susceptível de comprometer a racionalidade que nos torna distintamente humanos...”.
3. Impõe-se porventura uma reabilitação magistral de Retórica e da Argumentação que, desde o anátema lançado sobre elas por Platão, se viram excluídas do campo da reflexão epistemológica. Longe de limitar a Argumentação no plano discursivo, mostra-se que a Epistemologia, o Direito ou a Lógica, para citar somente estas disciplinas, actuam, cada uma de sua maneira, argumentando. É, assim, uma verdadeira antropologia que une a nova Retórica. Tudo começou com a rejeição do Positivismo Lógico, e principalmente, do seu precursor, Gottlob Frege. Este último também tinha a preocupação de tornar a linguagem natural mais pura para a assentar sobre a linguagem científica. Nos países de língua inglesa, tanto Frege quanto o neopositivismo tiveram uma forte influência antes de serem marginalizados, enquanto em França não se sabe ainda o que as palavras “Positivismo Lógico” querem realmente encobrir.
4. Hoje, as ideias do Positivismo são mais conhecidas por nós, e, com a sua crítica, encontrou em Américo de Sousa uma antecipação do seu próprio desenvolvimento na vertente do cognitivismo e da interacção persuasiva.
5. Mas o que diz na verdade o Positivismo lógico? Em geral, duas coisas. Por um lado, o modelo da actividade linguística e o do raciocínio são fornecidos pela ciência lógico-matemática e biológica na acepção dum mentalismo estrito. O rigor, o carácter unívoco, a necessidade do raciocínio demonstrativo são as características essenciais e úteis, em que as outras ciências, e a Epistemologia em particular, deveriam estribar-se. A demonstração e o raciocínio hipotético-dedutivo são os pilares do raciocínio e da lógica. Sem eles, não haveria lógica ou raciocínio que se sustentasse. Por outro lado, e isto decorre do que acaba de ser dito, os juízos de valor não decorrentes da lógica - dos juízos ditos da verdade - mergulham, de forma inevitável, tanto o homem de acção quanto o filósofo preocupado com a justiça, no irracional. O Direito e a Justiça estariam condenados separar-se da razão porque os valores não se decidem nem de forma lógica, nem minimamente de forma experimental garantida.
6. São estes dois axiomas do Positivismo que se tornam inexistentes, em proveito de uma concepção da razão preocupada em estabelecer o plano discursivo não-matemático no âmbito dos seus direitos e a razão prática na sua coerência.
7. O que se deve entender por visão da Retórica? Em primeiro lugar, os usos principais da linguagem obedecem, em geral, a modos de funcionamento opostos, em vários pontos, aos que regulam a Matemática. Ao contrário de Frege, que queria generalizar sobre a linguagem natural a partir de uma linguagem tão artificial quanto a matemática - “vocês sabem falar de álgebra” -, tenta-se mostrar que a linguagem lógico-matemática é uma construção do espírito que pressupõe a linguagem natural. Inspirada amostra deste raciocínio está especificamente nos gradientes da persuasão: [persuasão pessoal ou auto-persuasão, quando alguém avalia os argumentos por si próprio elaborados (deliberação íntima); persuasão interpessoal ou face-a-face a que se dirige apenas a uma outra pessoa (pai-filho, vendedor-cliente, etc.) e persuasão colectiva (quando são múltiplos os destinatários da mensagem persuasiva). É nesta última que poderemos integrar a persuasão de grupo, a persuasão de massas (tão óbvia no domínio do político), e no limite a persuasão universal, que corresponderia à noção perelmaniana de auditório universal] (Cf. Sousa, Américo, 2001: 156-157).
8. É pretensão excessiva querer expurgar a linguagem natural do que a constitui, a saber, a ambiguidade dos termos, o equívoco das palavras, a pluralidade dos sentidos e das leituras interpretativas. Como é que se pode realizar o uso quotidiano da linguagem se esta é tão imperfeita? Não estaria ela, desde então, imprópria para a comunicação e a expressão? A resposta é simples: a linguagem natural é perfeitamente adaptada às suas funções, apesar de suas imprevisões estruturais. De facto, um discurso é sempre proferido num dado contexto que fornece a informação necessária aos interlocutores, para dar um sentido ao que eles estão escutam - se possível um único sentido - e, se não o for, a informação contextual / co-textual ( Cf. M. Dascal, 1990, pp. 61-100) permitirá, pelo menos, a eliminação de falsas interpretações.
9. Em Matemática, pelo contrário, não podemos apoiar-nos em dados desta natureza tão incerta, como a informação contextual, que são muito subjectivos, excessivamente incertos. Um raciocínio matemático deve ser válido independentemente das pessoas às quais seja susceptível de se dirigir. Aqui, não podemos pensar numa ou noutra contribuição contextual, e o aspecto unívoco do discurso tem de ser muito bem desenvolvido, mediante uma construção que faça uso de símbolos bem definidos a priori, de axiomas e teoremas, e demonstrações e de regras claras e distintas numa forma cartesiana de formação e de transição para toda (nova) a expressão possível.
10. Mas a linguagem natural permite a si mesma a economia de um tal esforço, já que as suas expressões, susceptíveis de receber sentidos e funções linguísticas múltiplas, são finalmente dotadas de um significado preciso graças ao carácter implícito do contexto, compartilhado pelo enunciador e pelo auditório, e que serve para que um se faça entender pelo outro. Desta forma, não é necessário alinhar todas as suas premissas, nem mesmo explicitar toda a informação quando comunicamos com outrem. Este conhecimento constitui uma reserva quase infinita, inominada, imaterializárel e não-garantida de proposições que se identificam, na verdade, com o que chamamos cultura: da revista ao livro de erudição, pode ser encontrado um vasto acervo de valores, de lugares comuns, de pressupostos que alargam o campo do implícito mediante o qual o explícito adquire precisão e um rigor que, no caso da Matemática, como linguagem excluída do contexto, tem de se impor a priori quando os constrói. Na verdade, o modelo matemático, em matéria de linguagem, tem por consequência tirar a linguagem natural do contexto. Assim, ela actuaria no vazio, e não seria compreensível que sequer os positivistas pudessem ter imaginado que ela de alguma forma pudesse ter funcionado. As frases adquiridas fora de qualquer contexto, autónomas como proposições matemáticas, só podem gerar equívocos e serem inferiores, do ponto de vista do status funcional, às que são encontradas nas ciências e nas linguagens formais. Américo de Sousa seguindo Chaïm Perelman verifica que todo o discurso tem um contexto, e, por conseguinte, um auditório para o qual ele é produzido. A relação que se estabelece entre o auditório e o enunciador é, propriamente dita, retórica, já que a adaptação ao auditório é uma condição para a persuasão e da lógica funcional[1].
11. Sendo importante que o orador saiba dar a impressão de possuir um carácter digno de confiança, é igualmente necessário que conheça o carácter dos seus ouvintes e a ele saiba adaptar-se. Por isso Aristóteles nos capítulos XII a XVII do Livro II da Retórica procede à análise e classificação do carácter em relação com a idade e a fortuna. No que respeita à idade, distingue três classes: os jovens, os adultos e os velhos. Os jovens são apaixonados, pródigos, valentes e volúveis. Os velhos, são calculistas, avarentos, cobardes e estáveis. Só os adultos maduros adoptam uma atitude intermédia e sensata.
12. Suscitar o entendimento e a adesão encontra-se, necessariamente, na base de toda explicação da linguagem real, da forma como ela é praticada diariamente. O discurso científico é, na verdade, uma simples modalidade, e não um modelo do racionalismo argumentativo, ou seja, do âmbito discursivo. A omnipresencialidade, e assim a imensurabilidade, do discurso científico enquanto narrativa lógica deve ceder ao pensamento débil assente na ambiguidade semântica e na modalidade exponencial dos sentidos. Na ciência, também existe um auditório - o auditório universal como dissemos acima -, e a razão aqui empregada não deve ser concebida como sempre foi, a saber, como se se entregasse a um monólogo consigo mesmo. O entendimento divino, tornado científico, não precisa de auditório. Mas será esta uma forma razoável de garantir a actividade científica?[2]
13. Uma lógica da argumentação é decididamente uma lógica dos valores, uma lógica do razoável, do preferível, do estratégico, da sedução, do opinável e no limite da convicção dos auditórios e não uma lógica do tipo matemático ou, como é dito geralmente, da necessidade constringente, ou à maneira husserliana, apodíctica e apofântica, garantida, tendendo para a infinitação matemática. Esta última força à unanimidade. Mas a maior parte dos usos da linguagem não reúne esta unanimidade, especialmente em matéria de moral e de política, ainda que seja corrente aqui ou ali internar, prender, deportar, ou aniquilar os que se recusam a aceitar a universalização forçada das máximas do poder legitimado (Koestler, A., 1979).
14. Com efeito, uma argumentação, pelo facto de não ser constringente, autoriza várias conclusões, várias escolhas, numa pluralidade de hipóteses uma recusa de valores, que proporciona, assim, um debate interminável, (o que é o plano horizontal da conversabilidade e propício às inferências baseadas no espírito dialogal) a não ser que se faça uso da força. Uma Ética é justa pelo facto de admitir que os valores não são conclusões evidentes às quais o universo deve submeter-se. Uma Ética deve apoiar-se na realidade argumentativa, desestabilizada pelo jogo de valores, só podendo resultar do pluralismo destes.
15. O significante da Linguística e da Psicanálise pode ocupar um lugar em um esquema, numa lógica, tal como propõem Berrios e Chen (1993: 163, 308-314). No esquema lógico de Brown (1994: 151, 1272-1280), a crença operante é que a relação entre a unidade de análise (o sintoma) e o quadro clínico é invariável e empiricamente determinada, ou determinável, supondo que a relação entre as palavras e os referentes seja também invariável e reiteradamente verificável. Não é essa situação que encontramos na Linguística (estrutural) e na Psicanálise. Tanto a verificabilidade quanto a invariância são postas em questão.
16. O que se discute aqui não é, propriamente, um debate moderno. Os estóicos e os epicuristas defendiam propostas distintas no que se refere à vinculação entre as palavras, as coisas e a verdade (verdade: entendida como a função da palavra em representar o referente sem engano). Os estóicos exibiam a noção mais aproximada da que se introduz nesse debate. Relembrando um filósofo, Sexto (Mandolfo, R., 1965, Vol. II): este - na busca da qualificação do verdadeiro e do falso - indica que a linguagem cumpre um papel nesta qualificação. Assim, reconhece na linguagem a existência de três domínios: o significado, o signo e a coisa. Esta tripartição da linguagem é evidente, diziam os estóicos, quando a palavra é dirigida a quem não pertence à mesma comunidade linguística do emissor. Por exemplo, é dita a palavra "arigatô”. O estrangeiro ouvirá o som, mas não saberá a que se refere. Não há descodificação. O estrangeiro pode reconhecer ali uma palavra e, portanto, que aquela refere-se a uma coisa mas não sabe qual é. Esta perspectiva envolve, assim, dois corpos - a palavra e a coisa - e um terceiro termo, incorpóreo e invisível, que corresponde ao significado. O significado pode ser verdadeiro ou falso e é descodificado apenas se o código linguístico entra na cena. A propósito, "arigatô" significa "obrigado". Como a referência esclarece, entre o objecto a ser designado e o instrumento existente para designá-lo - a linguagem[3] - as relações não se passam sem alguma vacilação e sem uma referência ao código onde emissor e receptor estão imersos.
17. Segundo Saussure, a unidade básica de onde deve partir a abordagem racional da linguagem é o signo. O signo é fraccionado em "significado" e "significante". Sem aprofundar a discussão, confere-se ao significado o estatuto de conceito e ao significante a imagem acústica, a materialidade da palavra. A reunião destes dois termos na unidade "signo" é função de sua pertença a um código. Esta vinculação entre a imagem acústica e o conceito, na proposição de Saussure, não é obrigatória, nem natural e também não é motivada. Isto é, não há nada na imagem acústica "arigatô" que a obrigue e a motive naturalmente a significar o conceito "obrigado" e muito menor é a vinculação da imagem acústica "arigatô" ao referente conceptual obrigado, o conceito em si mesmo. São, portanto, três domínios ao mesmo tempo inseparáveis e radicalmente distinguíveis: o significante, o significado e o referente.
18. Reina, então, no campo constituído pela linguagem e os referentes um estado de coisas que não é capturado por uma lógica biunívoca: a cada significante, um significado e um referente. A relação imensurável e arbitrária que rege a associação destes três campos permite, além da multiplicação de códigos linguísticos, que cada um dos campos seja determinado por lógicas particulares que não se sobrepõem necessariamente.
19. No campo do significante, qual a lógica prevalente? É a lógica da diferença. Diz Saussure: "o significante não é constituído pela sua substância material, mas unicamente por diferenças que separam a sua imagem acústica da dos outros. O que os caracteriza não é, como se poderia crer, a sua qualidade própria e positiva, mas simplesmente o facto de não se confundirem entre si. São, antes de tudo, entidades opositivas, relativas e negativas" (Saussure, F., 1970). Posto isto, como ocorre o jogo que permite a significação? Esta reposta é obtida recorrendo ao conceito de "valor". O valor de uma palavra é a significação que lhe confere a presença de todas as palavras do código como também, mais proximamente, a presença dos elementos constituintes de uma frase. A noção de valor leva a conceber a produção do sentido não como a correlação entre um significante e um significado, mas como um acto de corte vertical de duas massas amorfas, de dois campos em oposição: os conjuntos de significante e de significado possíveis em um determinado código. O sentido surge quando as duas massas são cortadas ao mesmo tempo. Assim, deduz-se que um significante só nada significa. Algo da ordem de um sentido, de uma significação, só pode brotar de um conjunto de significantes que não está isolado e nem é positivamente isolável do conjunto amplo e finito de possibilidades combinatórias. A significação, portanto, não é produzida sem a interferência dos significantes e sempre haverá algo que falha, que derrapa quando estas duas massas amorfas - de lógicas distintas - visam, em um ato intencional, um referente particular.
20. O domínio do ético envolve-se com o sujeito como parceiro num diálogo e desenvolve-se num processo onde a reflexão se torna mais contextualizada, embora como processo de negação mais do que de confirmação do âmbito do auto-evidente. No entanto, a reflexão determina-se dentro de um círculo mágico: é um acto de liberdade e, além disso, de luta pela própria possibilidade da liberdade. Exige e condiciona a diversidade da liberdade e das possibilidades humanas, por um lado, e, por outro lado, requer actos de responsabilidade e coragem, quanto a si mesmo e quanto aos outros. Mas, como actividade humana, a reflexão ocorre num âmbito social e aí exerce um papel específico - mesmo que problemático. Como tal, a reflexão é apenas um elemento de uma intersubjectividade humana dinâmica, rica e complexa. A reflexão é sempre alterada, parcial e situada no meio de forças, objectivos e orientações conflituantes. A ética não é, portanto, sinónimo de relativismo, que a Retórica sempre foi acusada de defender. Existe, claramente, um apelo ao implícito cultural que assegura à argumentação não-racional o seu carácter razoável.
21. Para Platão, o retórico age seduzido pela linguagem e manipula-a de tal forma que possa sempre fazê-la dizer o que melhor convêm nas diversas circunstâncias. Ele não tem uma doutrina, mas pode defendê-las a todas, ao contrário da linguagem científica, matemática, que autoriza unicamente ideias claras e distintas, de evidências, como dirá mais tarde Descartes, ou proposições apodícticas como diz Edmund Husserl, ou mesmo a lógica da “falsação” de K. Popper.
22. Será uma pretensão não judiciosa querer recalcar a linguagem epistemológica sobre evidências incontestáveis, oferecidas pelos discursos que garantem um fundamento indestrutível. O discurso crítico não tem outro recurso senão o do senso comum, que ele irá procurar desconstruir, sistematizar, alterar. Neste sentido, o discurso epistemológico é sempre submetido à discussão e ao debate contraditório, e sabemos que, em matéria de Epistemologia, o facto é comum, já que nenhum sistema epistemológico escapou à sua obsolescência.
23. O que fazer da ambiguidade do mundo real, da ambiguidade que nos oferece o senso comum, senão tutelá-la, em vez de pretender poder vencê-la pela formalização sistemática? A reabilitação do retórico no seio de uma Nova Retórica consiste em finalmente consciencializar-se de que a argumentação filosófica não tem nem o rigor das ciências formais, nem os recursos experimentais das ciências empíricas, e que ela trabalha a partir da linguagem natural, repleta de noções confusas, submetidas perpetuamente ao jogo social do debate contraditório, de onde não saberíamos evadir-nos pelo simples recurso à experiência, nem pela via da formalização que exclui as alternativas para as questões tratadas. Há que permanecer com estas questões e oferecer os meios de discuti-las como tais.
24. Américo de Sousa deu-nos uma tipologia de esquemas argumentativos sobre os quais não há mais meios de ampliar: generalizando, trata-se de afastar ou de reaproximar, a cada vez que se argumenta, noções que unimos, para fazer surgir um valor-referência que rejeitamos, ou ao contrário, que queremos ver adoptado. A analogia e a metáfora ilustram bem este mecanismo em que achamos duas noções unidas para sugerir uma conclusão. Tudo isto é suficientemente conhecido para que não seja necessário que se continue a insistir. Mas o que é realmente importante observar é a relação entre a retórica literária e a nova retórica[4]. Quanto ao discurso retórico propriamente dito, pode dizer-se que, ao contrário do discurso científico, ele tem pretensões literárias, pois brilhar, surpreender e até divertir, pode contribuir decisivamente para persuadir o auditório. Mas isso, segundo Aristóteles, não deve confundir-se com o recurso a um estilo poético, pesado, como o de Górgias, já que o uso de um estilo sereno, claro e natural é o mais adequado quando se pretende ser convincente. "Por isso não convém que se note a elaboração nem dar a impressão de que se fala de modo artificial mas sim natural (este último é o persuasivo, pois os ouvintes predispõem-se para contrariar, quando ficam com a ideia de que se está a metê-los numa armadilha, tal como acontece com os vinhos misturados) ” (Aristóteles, 1998:242). O recurso literário mais importante da oratória é a metáfora. Mas é preciso saber encontrar metáforas adequadas, nem muito obscuras nem triviais. Por outro lado, o discurso, embora sem cair no verso, não pode renunciar ao ritmo. E Aristóteles explica porquê: "a forma que carece de ritmo é indefinida e deve ser definida, ainda que não seja em verso, já que o indefinido é desagradável e difícil de entender” (Aristóteles, 1998: 263)
25. Assim como a matemática forneceu o paradigma e a metodologia do racionalismo clássico, também o direito fornece, não o modelo único, mas uma metodologia complementar para aquele que reserva um lugar importante para a argumentação. O direito caracteriza-se, com efeito, também pelo ideal e o escopo de um pensamento sistemático - fala-se em diversos sistemas jurídicos - que define uma ordem que deve guiar a acção, mas uma ordem aberta, flexível, capaz de se adaptar às circunstâncias e à procura de uma decisão fundada na equidade. O raciocínio jurídico não será impessoal, mas deverá tomar em consideração as pretensões das partes, a opinião pública esclarecida, e, acima de tudo, os tribunais superiores. O seu campo é livre, mas não arbitrário, pois deve ser razoável.
26. Como se caracterizaria o razoável? Diz Aristóteles: … “e também que o razoável permanece sempre e nunca muda, como sucede com a lei geral (pois é conforme à natureza), enquanto que as leis escritas o fazem com frequência (....) atenderemos também ao que é o justo, não à sua aparência, o que é verdadeiro e conveniente, de forma que a escrita não é lei, porque não serve como a lei. E também que o juiz é como o contrastador de moeda, que deve distinguir entre a justiça adulterada e a legítima (....). Pelo contrário, quando a lei seja favorável ao caso, há que dizer que o “com o melhor critério” não serve para julgar contra a lei, mas sim para evitar prejuízos pelo desconhecimento do que a lei prescreve. E que ninguém escolhe o bom em absoluto, senão o que é bom para ele….” [Aristóteles, 1998 :130-131 e 134].
27. O que caracteriza o direito, ao contrário das outras áreas em que se exerce a argumentação, é que ele deve chegar a uma decisão que terá força de coisa julgada. Com efeito, sendo um dos objectivos do direito o estabelecimento da paz social, os conflitos não devem perpetuar-se: o factor tempo tem um papel considerável, se quisermos evitar a acusação de obstruir a Justiça. O direito desenvolveu procedimentos seculares que facilitam a solução dos conflitos, tais como a delimitação de competências, a organização dos debates judiciários[5], o recurso a presunções de todo género, a distribuição do ónus da prova.
28. Este exemplo faz entender o pluralismo lógico-linguístico, quanto seria exaustivo referi-lo, e a obrigação de justificar as tomadas de posição. Estas não resultam nem de uma intuição evidente, nem de uma decisão arbitrária, mas são a expressão de uma escolha pensada, marcada tanto pela personalidade do filósofo e dos seus valores, as aspirações e crenças no meio das quais ele nasceu. A razão, por cujo nome ele desenvolve as suas ideias, e para a qual ele apela para torná-las admissíveis, não é o reflexo de uma razão divina, mas a expressão de uma personalidade social e culturalmente localizada, intersticial mas consistente.
Referências
1. Clássicas – Livros:
Allan, D., A Filosofia de Aristóteles, Ed. Presença, Lisboa, 1970.
Aristóteles, Retórica, Alianza Editorial, Madrid 1998.
Berrios, GE; Chen, EYH - Recognizing psychiatric symptons - Relevance to the diagnoses process. Britishi J. Psychiatry. 163, 308-314, 1993.
Brown, TA; Barlow, TH; Liebowitz, MR - The empirical basis of Generalized Anxiety Disorder. American J. Psychiatry. 151, 1272-1280, 1994.
Damásio, António, O Erro de Descartes, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1995.
Dascal, Marcelo,“The controversy about ideas and the ideas about controversy”, in F. Gil (ed.), Controvérsias Científicas e Filosóficas., Editora Fragmentos, Lisboa, 1990, pp. 61-100.
Husserl, Edmund, Meditações Cartesianas, Rés Editora, Porto, 2001
Koestler, Arthur, O Zero e o Infinito, Europa-América, Lisboa, 1979.
Meyer, Michel, O Filósofo e as Paixões, Edições Asa, Porto, 1994.
Mondolfo, R - O Pensamento Antigo. Desde Aristóteles até os Neo-platônicos. Vol II. São Paulo, Editora Mestre Jou, 1965.
Perelman, Chaïm e Olbrechts-Tyteca, L., Tratado da Argumentação, Martins Fontes, S. Paulo, 1999.
Platão, Górgias, Edições 70, Lisboa, 1997.
Popper, Karl R. - Conjecturas e refutações, Editora Universidade de Brasília, Brasília, 1972.
Popper, Karl R. - A lógica da pesquisa científica, tradução de Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota.- 2ª ed.- Cultrix, S. Paulo, cop.1972.
Popper, Karl R. - La logique de la découverte scientifique, traduit de L’anglais par Nicole Thyssen-Rutten et Philippe Devaux., Payot, Paris 1973.- (Bibliothèque scientifique).- Trad. de: The logic of scientific discovery, préface de Jacques Monod.
Popper, Karl R. - The logic of scientific discovery, 7th prt., Hutchinson, Londres, 1974.
Saussure, F - Curso de Linguística General. Buenos Aires, Ed. Losada, 1970.
Sousa, Américo de, A Persuasão (I Parte: Retórica: Discurso ou Diálogo; II A Nova Retórica; III Retórica, Persuasão e Hipnose), UBI, Covilhã, 2001.
2. Outras fontes:
http://plato.stanford.edu/entries/frege/#Adv

[1] Para despertar a confiança nos ouvintes, o orador precisa que estes lhe reconheçam três qualidades: racionalidade, excelência e benevolência. Porque se o orador não é racional na sua maneira de pensar, então será incapaz de descobrir as melhores soluções. Já um orador racional mas sem escrúpulos, pode encontrar a solução óptima mas ou não a comunica ou tenta enganar, propondo gato por lebre. Só num homem insigne, a um tempo racional, excelente e bondoso, se pode confiar.

[2] Sabemos, hoje, que toda obra científica se dirige a uma comunidade à qual se esforça por convencer recorrendo, nomeadamente, a critérios de exposição, como a simplicidade ou o rigor formal da teoria. O auditório é a realidade da razão humana, que sempre postula um outro ao qual ela se dirige, este outro podendo ser um interlocutor ideal, tão universal quanto um auditor preciso, particular, cujos interesses e pressupostos exclusivos são levados em consideração.
Foi deduzido que o Racionalismo e a linguagem formam um par. Pois não existe uso da linguagem que não seja baseado no esforço de convencer a pessoa a quem no propomos persuadir. Este Racionalismo provém da argumentação e Américo de Sousa prefere falar em “razoável” para deixar ao “racional” o campo da argumentação constringente. O racional e o razoável constituem o domínio da razão da maneira como se deseja conceber actualmente. Porquê fazer referência ao razoável quando se trata de Racionalismo argumentativo não-demonstrativo? Pura e simplesmente porque a conclusão, nada tendo de constringente ou de necessário na lógica argumentativa, só se impõe como tal diante de valores, de lugares comuns para os protagonistas, os quais são levados a adoptá-la com base nestes pressupostos. A conclusão de uma argumentação não-formal resulta de uma escolha que sempre pode ser discutida e contestada, que pode impor-se definitivamente porque, no âmbito da sociedade e dada a herança compartilhada entre o enunciador e o auditório, é razoável uma conclusão em vez de outra. Seria racional se pudéssemos concluir “somente” isto em vez daquilo. Mas todos sabemos, pelas discussões às quais nos entregamos todos os dias no nosso trabalho ou no nosso viver comum, que as conclusões que queremos ver adoptadas nada têm de inevitável, e que elas podem gerar convicções baseando-se, unicamente, no seu carácter de razoabilidade. É claro que um tal carácter defende certos valores no tempo, mas quem poderia ainda pretender que a razão, através de todos os seus usos, seja imutável e abstracta, e que a História ou a sociedade não existem e não implicam um domínio de generatividade mental imprescindível ao crescimento do conhecimento científico?

[3] Modernamente, foi Ferdinand de Saussure que reintroduziu esta questão ao inaugurar uma nova vertente no estudo da linguagem. Após Saussure, os estudos sobre a linguagem não mais se limitaram à comparação entre as gramáticas ou a estudos eruditos sobre a origem das palavras e a filiação entre as línguas. Saussure dirigiu a atenção para o estudo da linguagem como um sistema.

[4] Mas isto é somente um deslocamento condicionado do que se deve entender por retórica. Pois os efeitos de estilo, as figuras do discurso, são ligados por uma possibilidade de sugestão que ultrapassa a literatura e o que está aí incluído. Uma tal possibilidade ganha o seu fundamento na relação com o auditório, que se alimenta da história da cultura e do implícito contextual e co-textual, cuja multiplicidade de formas enquadra a epistemologia, a educação, a moral, o discurso literário, e finalmente, o direito.

[5] Quando a controvérsia é de natureza teórica, como nas ciências humanas e epistemológicas, não há última instância que possa impor, de uma vez por todas, o encerramento do debate e uma solução definitiva, subsistindo assim uma busca inacabada. Portanto, na medida em que os próprios argumentos[5] teóricos são ligados à tomada de decisões, eles podem atingir decisões provisórias que serão questionadas ulteriormente quando surjam teorias que falseiam as anteriormente construídas, se surgirem razões suficientes e contingentes para se mudar de atitude e de regime de pensamento.

 
André Veríssimo
Os Blogs que eu leio
Sites

Free Links from Bravenet.com Free Free-For-All Links from Bravenet.com
  On-line